No coração da Moldávia, um país conhecido como a "terra dos vinhedos", existe um lugar que desafia a imaginação: mais do que uma simples produtora de vinhos, a vinícola Cricova que leva o mesmo nome da cidade é uma verdadeira metrópolesubterrânea, com características únicas e uma história fascinante que se entrelaça com a identidade cultural moldava.
A Moldávia tem uma tradição vinícola milenar. Dentro desse cenário, a Cricova se destaca como um símbolo dessa herança. São mais de 120 quilômetros de túneis subterrâneos, escavados inicialmente no século XV para a extração de calcário utilizado na construção da capital Chișinău. Esses túneis, mais tarde, foram transformados em uma adega monumental nos anos 1950, criando um ambiente sem igual para a produção e armazenagem de vinhos.
Essa transformação geológica e histórica é o que torna Cricova tão especial. A profundidade dos túneis, que chega a 100 metros abaixo da terra, proporciona um ambiente naturalmente controlado: temperatura constante entre 12°C e 14°C, e uma umidade relativa do ar de 98%. Essas condições, praticamente impossíveis de replicar artificialmente, são perfeitas para a maturação lenta e a conservação dos vinhos.
Abaixo da cidade de Cricova, está literalmente um segundo município sem limites para a apreciação. As ruas da Cricova subterrânea, levam nomes de castas famosas, como Cabernet e Pinot Noir. Há até mesmo sinalizações de trânsito e veículos elétricos para orientar os visitantes. A experiência é tão surreal que não faltam histórias lendárias: uma delas diz que o cosmonauta Yuri Gagarin se perdeu nos túneis e só foi encontrado dois dias depois. Outra, afirma que o presidente russo Vladimir Putin celebrou seu aniversário de 50 anos ali.
A coleção nacional de vinhos da Moldávia é guardada em Cricova e impressiona: são cerca de 1,3 milhão de garrafas, incluindo raridades como um tinto chamado Jerusalém de Páscoa, de 1902, uma garrafa única no mundo.
Mas Cricova não é apenas tradição. É também inovação. A vinícola foi a primeira da Moldávia a produzir espumantes pelo método tradicional de champanhe (o MéthodeTraditionnelle, popularizado por Pierre Perignon). Esse comprometimento com a excelência se reflete também na produção de vinhos tintos, que mesclam uvas internacionais como Cabernet Sauvignon e Merlot com castas nativas moldavas, como Feteasca Neagră e Rara Neagră. Um exemplo notável é o Codru Roeticuvée, que combina Cabernet com Merlot e passa por envelhecimento em carvalho local.
A harmonização entre o tradicional e o contemporâneo, confere aos vinhos da Cricovaum caráter único. Eles respeitam as raízes locais, mas dialogam com os paladares internacionais. Um verdadeiro reflexo do terroir moldavo.
Além da produção de vinhos, Cricova se consolidou como um dos principais destinos turísticos da Moldávia. Suas salas temáticas — como o Salão Fundo do Mar ou o Salão Europeu oferecem uma imersão na cultura e hospitalidade do país. Não se trata apenas de degustar vinhos; é uma experiência sensorial e histórica, que conecta o visitante à alma da Moldávia.
Cricova representa muito mais do que uma vinícola. É um símbolo poderoso da tradição vinícola moldava. É a prova viva de como história, geologia e engenhosidade humana podem se unir de maneira espetacular e subterrânea.
Ao refletir sobre Cricova, fica a pergunta: de que forma esses espaços ocultos, como essa cidade do vinho, funcionam como cápsulas do tempo? Não apenas preservam vinhos, mas também histórias, técnicas e a própria identidade cultural de uma nação. Uma relação profunda entre o lugar, o produto e a memória coletiva que se perpetua, garrafa após garrafa.